A terra tremeu. Impressionada ainda com as notícias da destruição de parte de Angra dos Reis e de São Luís do Paraitinga pelas chuvas tropicais, assisto a imagens fortes de morte e desespero na cidade de Porto Príncipe , no Haití, que correm pelos noticiários. Escuto a angústia de uma mulher enquanto assiste e filma com o celular a destruição de sua cidade. “É o fim do mundo”, comenta. Soterrados sob os escombros da capital do pequeno país, estão dezenas de milhares de pessoas. A natureza não escolheu entre pobres e ricos, brancos e negros, haitianos e estrangeiros: matou trabalhadores haitianos e da Organização das Nações Unidas, matou visitantes e soldados brasileiros em missão de paz. Matou Zilda Arns, a mulher a quem devemos um programa social responsável pela redução drástica da mortalidade infantil, no Brasil.
E nós? Acompanhamos pela televisão e pela internet um verdadeiro estado de exceção. Aos gritos desesperados dos sobreviventes, aos mortos empilhados nas ruas da cidade, à falta de comida, água, luz e abrigo somam-se o perigo da violência, do terror e do medo trazidos pela anomia. Pois junto às construções dos prédios ruíram as normas da civilização. O caos tornou-se mais uma das ameaças à vida tão precária na cidade.
Mas, em meio aos escombros dos prédios e da organização social, há também solidariedade. Vizinhos e estranhos se organizam para dividir o que restou: cobertores, panelas, batatas, bananas. Os pequenos gestos de vizinhança nas cidades de lonas que estão se erguendo tem seu correspondente nos gestos dos governos das nações do mundo que , imediatamente, doaram dinheiro para a reconstrução da cidade. Organizam-se brasileiros, norteamericanos, chineses, mexicanos e cidadãos das mais diversas nacionalidades numa rede que denota como funciona a política em tempos de globalização: soberania e responsabilidade é dividia, pois o desastre atingiu a todos. Como se Porto Príncipe fosse um bairro de Nova Iorque, São Paulo ou Pequim, as nações enviam seus melhores bombeiros, médicos e engenheiros. Agir, e rapidamente, é necessário. O que conta é a práxis. Diante dela, eventuais divergências políticas entre o governador de São Paulo e o presidente da República tornaram-se irrelevantes. Quando há perigo de morte , as ideologias se calam.
Estamos com o terremoto diante do que Jacques Lacan chama de Real: imprevisível, sem hora marcada, as forças da natureza se manifestam, a morte irrompe nossas vidas. Suas leis escapam da ciência e tecnologia. Por mais sofisticada que sejam nossos aparelhos, não conseguem evitar o movimento das placas terrestres. Diante do Real falha a lógica, calam-se nossas palavras. Como então manter a civilização humana diante do caos provocado pela natureza?
Como pesquisadora do direito e psicanalista , chama-me atenção não só a falta de água e comida na cidade de Porto Príncipe. Preocupa também o estado de anomia, a ameaça que a violência possa correr solta entre os sobreviventes. Sigmund Freud dizia em Totem e Tabu e no Mal-estar na Cultura que para organizarmos a convivência humana necessitamos de um mínimo de normas norteadoras de nosso comportamento, normas essas pactuadas e respeitadas por todos. Ou obedecemos a elas , ou viveremos na barbárie, voltaremos a ser animais. Nesse sentido, os haitianos necessitam também de nossa solidariedade para fazer funcionar seu Estado democrático de direito, suas leis, seus símbolos. Merecem, portanto, nosso apoio as organizações governamentais e não-governamentais capazes de reestruturar um corpo simbólico de regras que possa agasalhar a comunidade haitiana e lentamente sarar suas feridas.
E feridas há muitas. Pessoas com os corpos mutilados erram por uma cidade que não tem mais imagem e , portanto, está , ela própria, mutilada. A reconstrução de Porto Príncipe é tão vital para os haitianos como a reconstrução de São Luís do Paraitinga para nós paulistas. Seus prédios dão identidade às cidades que, com a destruição de sua imagem, sofrem a dor de uma da mutilação. Cuidar da reconstrução do corpo da cidade, com seus prédios, suas praças, parques, escolas e hospitais será tão importante quanto cuidar das feridas de seus habitantes. A reconstrução de Porto Príncipe será um desafio para a humanidade. Cabe a nós, contribuirmos com recursos, conhecimentos e criatividade para transformá-la num porto seguro para seus habitantes.
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