sábado, 26 de dezembro de 2009

Um amor com jeito duro de ser

É Natal. Os noticiários reportam as festas do fim de ano, as confraternizações, muitas luzes, pessoas correndo para presentear seus familiares e amigos, receitas de delícias a serem preparadas para comemorar. Em meio às notícias sobre as festas, uma estória de amor chama atenção do público brasileiro absorto com as celebrações natalinas. É a estória de amor entre David Goldman e seu filho Sean.

David, na véspera do Natal, consegue resgatar seu filho depois de uma longa batalha judicial contra a ex-mulher, contra o marido da ex-mulher , contra os avós maternos, enfim, contra a família brasileira da qual Sean fazia parte até então. O resgate de Jean causa tumulto, lágrimas, tristeza do lado da família brasileira. Causa alegria do lado da família americana, mas, sobre tudo, causa muita polêmica. Não seria melhor o pai, em nome do amor, abrir mão do filho? Não é assim que ensina o Antigo Testamento narrando caso semelhante decidido, há milênios, por Salomão, o Justo? Não seriam as leis nacionais e as normas transnacionais tracônicas demais? Sean vai superar o trauma da separação da família do padrasto que o trata com tanto carinho?

Nosso antes tão vasto mundo , hoje, tornou-se pequeno. Passar a viver na “aldeia global” nos fez mais ricos. Ganhamos possibilidades de escolhas que nossos pais não tinham. Tornamo-nos cidadãos do mundo. Estudar e trabalhar fora do país é um sonho realizável para muitos. Nessas nossas viagens em busca de dar um abraço ao mundo encontramos frequentemente os braços abertos de um amor. Casais se formam, pois, afinal, o amor não conhece fronteiras, não quer saber de diferenças culturais e nem se importa com as implicações jurídicas e politicas que podem aparecer pela frente. O amor transnacional constitui famílias. É o berço de filhos que têm como pátria o mundo globalizado.

Quando um amor sem fronteiras acaba, começam os problemas do tamanho e da complexidade da globalização. Quem terá a guarda e a companhia dos filhos? Como manter os laços com os pais que moram distantes ? De repente, para quem se vê sem o filho, ainda mais se este foi levado embora sem seu consentimento, as fronteiras esquecidas diante da força do amor, erguem-se novamente e tornam-se obstáculos que parecem intransponíveis. Quem está na companhia do filho não vai perder a oportunidade de tratá-lo muito bem, de seduzí-lo. O filho, ainda mais se for pequeno, adapta-se a uma nova família, adota a cultura local e cria raízes que o deixam cada vez mais distante do genitor deixado do outro lado do mundo. Sean, no dramático momento de ser entregue a seu pai, agarrou-se ao padrasto que o tinha “adotado”. A camiseta da Seleção Nacional brasileira, com a qual Sean foi viajar rumo a seu país de origem para encontrar-se com uma família de estranhos , dá a dimensão do drama cultural vivido pela criança.

Quando a lei é chamada para decidir pendências do amor, o romantismo acaba. A própria palavra “decidir” tem sua raiz no “cortar”. A decisão do Supremo Tribunal Federal que devolveu Sean a seu pai cortou com a força da lei os laços entre Sean e seu padrasto. E o corte dói! Corta o coração de quem assiste o drama de fora, imagine de quem sofre o corte no próprio corpo! Por outro lado, o drama põe à mostra o amor e a coragem de um pai quem nunca se conformou com a perda do filho. Lutou e não abandonou seu filho no outro lado do mundo. Para David, viver em companhia do filho é uma questão do sagrado. E quem diz que o sagrado não é severo?

Que fim vai ter essa estória de amor? Não se sabe. Só resta a esperança que Sean apreenda , um dia, que o amor , às vezes , tem um jeito duro de ser.

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