No palco, músicos, ainda jovens, afinam seus instrumentos. O som, ao fundo, convida os fregueses de domingo se aproximarem. E, aos poucos, eles vêm chegando, as moças e os rapazes de outrora. Devagar, por causa dos males nas pernas que o passar dos anos traz consigo, procuram seus lugares no ponto de encontro do Mercado Municipal. A Banca do Choro vai lotando , pouco a pouco, com seus ouvintes. Há crianças, há jovens, sim, mas show é das cabeças grisalhas que, alegremente, se cumprimentam aos beijinhos. Sinto-me quase uma criança, apesar de minha meia-idade.
Quando o bandolim começa a tocar, seguido pelo violão, o cavaquinho e o pandeiro, as faces marcadas pelo tempo se iluminam. O Choro nos leva para uma São Paulo com um centro tão esplendoroso quanto o Mercado Municipal que , hoje, se tornou uma das principais atrações turísticas da cidade. Imagino, como deve ter sido a Ladeira Porto Geral e a Rua 25 de março nos anos 40, 50 e 60 do século passado, na época, na qual as senhorinhas e os senhores, que, ao meu redor, se emocionam ao som do Choro, eram moços. Percebo nos rostos dos que se encantam com a música, como em São Paulo as origens e a culturas se mesclaram para acabar num Samba bem próprio, bem paulistano. Muitos deles devem ter visto Adoniram Barbosa , cujo boneco tem seu lugar de honra numa das mesas de outra banca do mercado, ao vivo e em cores.
Canta o bandolim, o pandeiro dando o ritmo. É um Choro de saudade, um Choro de quem viu a vida passar carnaval após carnaval. E a vida pulsa, nesta manhã ensolarada de domingo. O chop que vai lotando as mesas dos jovens de hoje e de outrora está gelado, o pastel está crocante, o salgado dá gosto. É o gosto da vida, de seus amores e de suas alegrias, servido na Banca do Choro que, a essa hora, de tristeza não tem nada.
A Banca do Choro do Mercado Municipal abre aos domingos entre 11:30 e 13:30. A entrada é livre.
Dois comentários estrangeiros. Ambos de Lisboa, por onde andei ha uns dias.
ResponderExcluirO primeiro tem ha ver com o como a música (e a comida) traz memórias e une gerações. No primeiro dia em Lisboa fomos jantar em um restaurante típico. Claro, foi servido o bom bacalhau ao som do tradicional fado portugues. No restaurante, diversas gerações, curtindo a cultura típica, a música, e a comida como em um rito iniciático de passagem, garantindo aos mais velhos a rememoração de tempos passados e aos mais novos a possibilidade de fazê-lo enquanto durar a tradição.
O segundo tem ha ver com um post mais antigo, onde foi citado o rompimento dos vínculos familiares horizontais. Cominhando pelas ruas, em um banco, vi uma propaganda que chamava os netos a caminharem pela cidade com seus avós no dia do avô.
Às vezes achamos difícil compreender a importância desse elo... o sentimento evocado por essas músicas... Mas não é tão complexo se trouxermos para a realidade de nosso tempo. Minha infância e juventude foram embalados pelos ritmos dancantes, provocantes e transgressores de Madonna. Aquela cheia de vida e juventude. Não a que vemos no palco hoje (e sabe-se lá por quanto tempo). Daqui a algum tempo (não muito tempo) lembrarei com saudade dessa juventude, desses ideais. Olharei para tras e verei o quanto de mim ficou pela estrada sinalizada apenas por uma ou outra lembrança como essa.
E esse vínculo dribla um dos medos mais fortes da humanidade. Todos temos medo da morte. E o envelhecer é a lembrança indelével, marcada em nossa pele, de que essa morte um dia chegará. O problema é que a idade nos priva aos poucos de tudo que nos é caro até finalmente nos privar da vida. Assim, o medo da morte migra para o medo do envelhecer... E se na época de nossos pais tinhamos James Dean imortalizando em um filme o lema: "Live fast, Die young", na nossa temos Alphaville na música Forever Young: "Let us die young or let us live forever". E para aqueles que não morreram jovem, as lembranças evocadas pela música podem ser o melhor jeito de viver para sempre, ainda que por um curto período de tempo.