segunda-feira, 26 de julho de 2010

Cantos de Sampa: a Banca do Choro

No palco, músicos, ainda jovens, afinam seus instrumentos. O som, ao fundo, convida os fregueses de domingo se aproximarem. E, aos poucos, eles vêm chegando, as moças e os rapazes de outrora. Devagar, por causa dos males nas pernas que o passar dos anos traz consigo, procuram seus lugares no ponto de encontro do Mercado Municipal. A Banca do Choro vai lotando , pouco a pouco, com seus ouvintes. Há crianças, há jovens, sim, mas show é das cabeças grisalhas que, alegremente, se cumprimentam aos beijinhos. Sinto-me quase uma criança, apesar de minha meia-idade.

Quando o bandolim começa a tocar, seguido pelo violão, o cavaquinho e o pandeiro, as faces marcadas pelo tempo se iluminam. O Choro nos leva para uma São Paulo com um centro tão esplendoroso quanto o Mercado Municipal que , hoje, se tornou uma das principais atrações turísticas da cidade. Imagino, como deve ter sido a Ladeira Porto Geral e a Rua 25 de março nos anos 40, 50 e 60 do século passado, na época, na qual as senhorinhas e os senhores, que, ao meu redor, se emocionam ao som do Choro, eram moços. Percebo nos rostos dos que se encantam com a música, como em São Paulo as origens e a culturas se mesclaram para acabar num Samba bem próprio, bem paulistano. Muitos deles devem ter visto Adoniram Barbosa , cujo boneco tem seu lugar de honra numa das mesas de outra banca do mercado, ao vivo e em cores.

Canta o bandolim, o pandeiro dando o ritmo. É um Choro de saudade, um Choro de quem viu a vida passar carnaval após carnaval. E a vida pulsa, nesta manhã ensolarada de domingo. O chop que vai lotando as mesas dos jovens de hoje e de outrora está gelado, o pastel está crocante, o salgado dá gosto. É o gosto da vida, de seus amores e de suas alegrias, servido na Banca do Choro que, a essa hora, de tristeza não tem nada.

A Banca do Choro do Mercado Municipal abre aos domingos entre 11:30 e 13:30. A entrada é livre.

domingo, 11 de julho de 2010

"Quando a máscara cai" de Jorge Forbes: uma recomendação de leitura

O que leva heróis do futebol terminarem sua carreira numa delegacia de polícia?

Recomendo a leitura da crônica assinada por JORGE FORBES, publicada hoje, dia 11 de julho de 2010, no caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo. Cito um trecho do artigo:

"Meninos de hoje não choram mais nos ombros de seus ancestrais, meninos de hoje não têm ancestrais. A sociedade pós-moderna pulveriza as verticalidades e não provê acolhimento das angústias nas hierarquias verticais, nos mais velhos, nos mais experientes, nos que já passaram por isso. O resultado está aí: a série que deveria ser: descoberta, sucesso, fama, dinheiro, conforto e satisfação tem sido: descoberta, sucesso, fama, dinheiro, mulheres, drogas, violências, desastres, prisão ou ostracismo." Leia mais:
QUANDO A MÁSCARA CAI http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,quando-a-mascara-cai,579313,0.htm

sábado, 10 de julho de 2010

Para Eliza

“Amor e ódio”

Eles se amavam, um dia, a bela e a fera. Ela, uma moça na flor da idade, ele, um atleta de sucesso, um herói, exemplo para tantos jovens que sonham em vencer o jogo da vida. No entanto, o amor tem lá seu preço. Suas consequências pode ser uma gravidez, um filho, responsabilidades, separações, perturbações, brigas. E o amor, num piscar de olhos, pode tornar-se ódio de morte. O que era uma paixão virou escândalo. “Será que um amante é capaz de mandar abater sua amada feito um animal?” perguntamo-nos assustados ao assistir na televisão os relatos de mais um crime bárbaro que assombra o Brasil depois de sua saída da Copa do Mundo.

No noticiário apreendemos , quase que en passant, que todos os dias morrem entre 10 e 12 mulheres assassinadas pelos que, um dia, foram seus amantes. O que leva um homem a matar a mulher que já foi sua? Machismo, como quer a opinião popular? Psicopatia, como explicaria a psiquiatria forense? Miséria, como diriam os sociólogos? Falta de valores, como lamentariam os religiosos? Talvez...

O que choca, além da brutalidade desses crimes, é que o assassino, via de regra, é uma pessoa comum. Há anos, o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes tem abordado em inúmeras publicações o fenômeno da violência despropositada e desmedida, praticada por homens e mulheres. Pessoas aparentemente normais são capazes de passar por cima do que antes era sagrado: a vida da mãe, do pai, do filho. Há poucas décadas, a lei, a moral , o costume e o super-ego eram capazes de segurar as pessoas nos limites da lei do pai, do Estado, da religião. Hoje, diante de um mundo sem fronteiras e sem limites , no qual a figura paterna está perdendo terreno, as pessoas não se curvam mais com tanta facilidade diante das normas. O resultado é uma verdadeira epidemia, como diz Jorge Forbes em seu livro "Você quer o que deseja?" quando analisa a onda de parricídios, o seja, o assassinato de parentes, e a violência sem medida nas ruas.

Porque homens matam suas companheiras? É uma questão de poder masculino? Henrique VIII da Inglaterra mandava, no século XVI, para o cadafalso as mulheres que ele não amava mais. Ele era o rei, fazia suas leis e as executava. Essas mortes eram uma demonstração de ódio e de poder. Ou será que, no fundo, eram uma demonstração de medo do monarca diante de mulheres poderosas?

O jeito feminino sempre foi um segredo para os homens. Mulheres não se prestam à lógica masculina, não se submetem a suas ordens, não vestem seus uniformes. “O que quer a mulher?” até Sigmund Freud se perguntava. Para Jacques Lacan, cada mulher é diferente da outra, é diferente dos homens, este, sim, igual a seu semelhante. Uma mulher é "unheimlich", como se diz em alemão, “estranhamente familiar”. Ela assusta, amedronta. Muitos homens, paradoxalmente seus amantes, agridem mulheres , porque não sabem lidar com essa estranha diferença que uma mulher representa. Tentam educá-la, subjugá-la e acabam agredindo e, em casos extremos, matando. Fazem isso para livrar-se de um incômodo que uma mulher significa em suas vidas.

De alguns anos para cá, a legislação mudou. Delegacias especializadas foram criadas. A sociedade brasileira mobilizou-se para proteger as mulheres. Só que o braço forte da lei, numa sociedade cada vez mais globalizada e ilimitada, não basta para deter a violência. Cabe a cada um de nós responsabilizar-se. Responsabilidade vale, sobre tudo, nas questões do amor. Jacques Lacan criou muita polêmica , quando disse que homens e mulheres são tão radicalmente diferentes que nunca vão se entender. Ele expressou esse fato na palavra “a relação sexual não existe”. No entanto, Lacan nos diz que o amor é capaz de criar a ponte sobre o abismo entre um homem e uma mulher. Para a construção dessa ponte é necessária essa responsabilidade sem lei que se chama ética. Transformar um ex-amor em amizade, em solidariedade, não é algo que mandam os códigos , mas a convivência humana. Lamentavelmente, com o amor morto, abre-se o caminho do ódio, do amor às avessas, abre-se o chão e aparece o buraco da morte.