As Almofadas de Amélia
Amélia, aquela mulher de verdade, aquela que passava fome ao lado do amado, pacientemente, sorridente, pois é, aquela Amélia está em extinção. No índex das mulheres em extinção, ela está próxima ao ícone da Mamãe com o avental manchado de ovo. Do lar: uma espécie ameaçada.
Amélia está indo à luta. Não se conforma em passar fome ao lado do amado, e põe-se a trabalhar. Faz unhas, enfrenta máquinas pesadas e computadores, puxa carreta. Se há uma revolução neste mundo globalizado, é essa que as Amélias vêm realizando. Estão conquistando o mercado de trabalho aqui, nos Estados Unidos, na Europa, na China. Mulheres dando duro, mulheres valentes, mulheres polivalentes. Fazem direitinho, tal como aprenderam no lar! O capital adora a trabalhadora. Tira proveito da capacidade da mulher de fazer tudo ao mesmo tempo, tira lucro da multiplicidade de seus talentos. O capital age, na globalização, como mulher, coordenando concorrentes em redes empresariais. Descobriu a criatividade e a sensibilidade para fazer dinheiro. O mundo do trabalho é capaz de transformar nossas energias mais vitais em capital.
Nesse universo do trabalho feminizado, no entanto, mandam homens, melhor, manda o masculino. O masculino encarna o poder num mundo feminino! O estilo macho de ser ainda está lá, ambiente de trabalho, não importando quem “veste as calças”. Batem na mesa, gritam, dão ordens, dão golpes, quando a questão é o poder. Mulheres dão o exemplo da capacidade de executar vários trabalhos ao mesmo tempo. Homens, ou mulheres equivalentes, no entanto, ainda ocupam os postos de trabalho bem pagos. Não largam o osso.
Quando Amélia grita, dá ordens e puxa tapetes, é chamada de histérica! Ousou usar a linguagem do macho, o que não lhe cai bem. Não mesmo, porque gritar, dar ordens e puxar tapetes é histeria de fato... dos machos!
De volta ao lar, no que se transformou o amado de Amélia, agora guerreira do trabalho? Será que ele reconhece o esforço dela, fazendo canções sobre a nova Amélia? Tem saudade da mulher que dá um duro na frente de batalha mercadológica? Está feliz, por acaso, por ter uma companheira ao seu lado que não se conforma em passar fome?
Pelos relatos de Amélia, seu marido virou almofada, enfeitando o sofá da sala. Entregou-se ao ócio, já que o mundo do trabalho é dela! Se ela é quem garante as contas de luz, de água, do aluguel e do supermercado, para que se esforçar? O que resta a fazer? Cuidar da casa? Também disso ela dá conta! Reunião de pais na escola? Deixa que ela vai! Levar filhos ao médico, perdão, à médica? Ela leva. Supermercado? Ela faz depois do expediente! Lavar roupas? Amélia passa a vida lavando e passando, enquanto ele faz companhia às demais almofadas, assistindo a novela das sete.
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