BANDEIRA DE RETALHOS
Bloco de textos de Dorothee Rüdiger trazendo reflexões sobre direito, psicanálise e o ser mulher no mundo globalizado
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Merci, Ano Velho!
Você me fez rica, apesar de algumas perdas que prefiro encarar como sendo apostas para ganhar minha fortuna: amores, amigos e mais amigos, afeto, respeito e às vezes também ajuda na hora certa.
Voltei às salas de aula para dividir com os alunos da capital minha paixão pela vida e pela justiça. Fui recebida com carinho por uma geração acostumada a muita informação e sedenta de fazer do conhecimento um instrumento para suas escolhas. Ganhei meu pão, gratidão, afeto e novos colegas. Trabalhei com prazer.
Obrigada, ano que hoje se despede, pelas flores no caminho da psicanálise que percorri em companhia de meus companheiros e de meu incrível mentor. Me fez ousar conhecer a mim mesma, rir e chorar atoa, abrir as janelas do inconsciente para soltar o desejo prestes a criar asas e voar. Novos pacientes me trouxeram suas angústias, antigos se deram por curados da timidez e do fastio, dos males do corpo e da alma. Só posso ser grata, Ano Velho, por esses encontros e reencontros, como também sou grata pela oportunidade de transmitir o que Freud explica em alemão e pelo que Lacan implica em francês.
Você me trouxe mais que isso. Me deixou resgatar algo que sempre foi meu e ao qual nunca dei o devido valor: meu diploma de advogada conquistado com tanto estudo em Freiburg, Paris e São Paulo. Agradeço, por isso, também por esse encontro tão inesperado com meus novos amigos advogados.
Foi feliz, Ano Velho.Merece um brinde e um fogo de artifício de gratidão. Obrigada pela paz que deixou meus caminhos seguros, pela saúde que me permitiu conquistar novos horizontes, pelos amores que me deram asas e pela prosperidade que não ficou somente na promessa.
O que me resta?
Desejar, para 2011, paz, saúde , amor e prosperidade!
UM FELIZ ANO NOVO!
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Cantos de Sampa: a Banca do Choro
Quando o bandolim começa a tocar, seguido pelo violão, o cavaquinho e o pandeiro, as faces marcadas pelo tempo se iluminam. O Choro nos leva para uma São Paulo com um centro tão esplendoroso quanto o Mercado Municipal que , hoje, se tornou uma das principais atrações turísticas da cidade. Imagino, como deve ter sido a Ladeira Porto Geral e a Rua 25 de março nos anos 40, 50 e 60 do século passado, na época, na qual as senhorinhas e os senhores, que, ao meu redor, se emocionam ao som do Choro, eram moços. Percebo nos rostos dos que se encantam com a música, como em São Paulo as origens e a culturas se mesclaram para acabar num Samba bem próprio, bem paulistano. Muitos deles devem ter visto Adoniram Barbosa , cujo boneco tem seu lugar de honra numa das mesas de outra banca do mercado, ao vivo e em cores.
Canta o bandolim, o pandeiro dando o ritmo. É um Choro de saudade, um Choro de quem viu a vida passar carnaval após carnaval. E a vida pulsa, nesta manhã ensolarada de domingo. O chop que vai lotando as mesas dos jovens de hoje e de outrora está gelado, o pastel está crocante, o salgado dá gosto. É o gosto da vida, de seus amores e de suas alegrias, servido na Banca do Choro que, a essa hora, de tristeza não tem nada.
A Banca do Choro do Mercado Municipal abre aos domingos entre 11:30 e 13:30. A entrada é livre.
domingo, 11 de julho de 2010
"Quando a máscara cai" de Jorge Forbes: uma recomendação de leitura
Recomendo a leitura da crônica assinada por JORGE FORBES, publicada hoje, dia 11 de julho de 2010, no caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo. Cito um trecho do artigo:
"Meninos de hoje não choram mais nos ombros de seus ancestrais, meninos de hoje não têm ancestrais. A sociedade pós-moderna pulveriza as verticalidades e não provê acolhimento das angústias nas hierarquias verticais, nos mais velhos, nos mais experientes, nos que já passaram por isso. O resultado está aí: a série que deveria ser: descoberta, sucesso, fama, dinheiro, conforto e satisfação tem sido: descoberta, sucesso, fama, dinheiro, mulheres, drogas, violências, desastres, prisão ou ostracismo." Leia mais:
QUANDO A MÁSCARA CAI http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,quando-a-mascara-cai,579313,0.htm
sábado, 10 de julho de 2010
Para Eliza
Eles se amavam, um dia, a bela e a fera. Ela, uma moça na flor da idade, ele, um atleta de sucesso, um herói, exemplo para tantos jovens que sonham em vencer o jogo da vida. No entanto, o amor tem lá seu preço. Suas consequências pode ser uma gravidez, um filho, responsabilidades, separações, perturbações, brigas. E o amor, num piscar de olhos, pode tornar-se ódio de morte. O que era uma paixão virou escândalo. “Será que um amante é capaz de mandar abater sua amada feito um animal?” perguntamo-nos assustados ao assistir na televisão os relatos de mais um crime bárbaro que assombra o Brasil depois de sua saída da Copa do Mundo.
No noticiário apreendemos , quase que en passant, que todos os dias morrem entre 10 e 12 mulheres assassinadas pelos que, um dia, foram seus amantes. O que leva um homem a matar a mulher que já foi sua? Machismo, como quer a opinião popular? Psicopatia, como explicaria a psiquiatria forense? Miséria, como diriam os sociólogos? Falta de valores, como lamentariam os religiosos? Talvez...
O que choca, além da brutalidade desses crimes, é que o assassino, via de regra, é uma pessoa comum. Há anos, o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes tem abordado em inúmeras publicações o fenômeno da violência despropositada e desmedida, praticada por homens e mulheres. Pessoas aparentemente normais são capazes de passar por cima do que antes era sagrado: a vida da mãe, do pai, do filho. Há poucas décadas, a lei, a moral , o costume e o super-ego eram capazes de segurar as pessoas nos limites da lei do pai, do Estado, da religião. Hoje, diante de um mundo sem fronteiras e sem limites , no qual a figura paterna está perdendo terreno, as pessoas não se curvam mais com tanta facilidade diante das normas. O resultado é uma verdadeira epidemia, como diz Jorge Forbes em seu livro "Você quer o que deseja?" quando analisa a onda de parricídios, o seja, o assassinato de parentes, e a violência sem medida nas ruas.
Porque homens matam suas companheiras? É uma questão de poder masculino? Henrique VIII da Inglaterra mandava, no século XVI, para o cadafalso as mulheres que ele não amava mais. Ele era o rei, fazia suas leis e as executava. Essas mortes eram uma demonstração de ódio e de poder. Ou será que, no fundo, eram uma demonstração de medo do monarca diante de mulheres poderosas?
O jeito feminino sempre foi um segredo para os homens. Mulheres não se prestam à lógica masculina, não se submetem a suas ordens, não vestem seus uniformes. “O que quer a mulher?” até Sigmund Freud se perguntava. Para Jacques Lacan, cada mulher é diferente da outra, é diferente dos homens, este, sim, igual a seu semelhante. Uma mulher é "unheimlich", como se diz em alemão, “estranhamente familiar”. Ela assusta, amedronta. Muitos homens, paradoxalmente seus amantes, agridem mulheres , porque não sabem lidar com essa estranha diferença que uma mulher representa. Tentam educá-la, subjugá-la e acabam agredindo e, em casos extremos, matando. Fazem isso para livrar-se de um incômodo que uma mulher significa em suas vidas.
De alguns anos para cá, a legislação mudou. Delegacias especializadas foram criadas. A sociedade brasileira mobilizou-se para proteger as mulheres. Só que o braço forte da lei, numa sociedade cada vez mais globalizada e ilimitada, não basta para deter a violência. Cabe a cada um de nós responsabilizar-se. Responsabilidade vale, sobre tudo, nas questões do amor. Jacques Lacan criou muita polêmica , quando disse que homens e mulheres são tão radicalmente diferentes que nunca vão se entender. Ele expressou esse fato na palavra “a relação sexual não existe”. No entanto, Lacan nos diz que o amor é capaz de criar a ponte sobre o abismo entre um homem e uma mulher. Para a construção dessa ponte é necessária essa responsabilidade sem lei que se chama ética. Transformar um ex-amor em amizade, em solidariedade, não é algo que mandam os códigos , mas a convivência humana. Lamentavelmente, com o amor morto, abre-se o caminho do ódio, do amor às avessas, abre-se o chão e aparece o buraco da morte.
domingo, 14 de março de 2010
O desenho no avesso do tapete: uma das quatro impressões sobre "Um primor de curso"
Veja mais: "4 impressões sobre um primor de curso" na homepage de Jorge Forbes e do Projeto Análise : http://www.jorgeforbes.com.br. Textos na íntegra no Instituto da Psicanálise Lacaniana: http://migre.me/odTA
quinta-feira, 4 de março de 2010
"As Almofadas de Amélia" na Vila Madalena
"As Almofadas de Amélia”, minha tão esperada criação literária, depois de um parto difícil, nasceu. Alguns entre vocês até já conhecem a criança. E agora está na hora do batismo!
Vamos lançar o livro ao mundo, comemorar, e aproveitar a oportunidade para nos reencontrarmos numa “hora feliz” literária.
entre 19:30 e 21:00 horas no
Rua Aspicuelta, 201, Vila Madalena, São Paulo
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Qual será o segredo do segredo?
Gringa que sou, percebi a virulência deste país que se chama Brasil numa tarde fria de carnaval em Freiburg im Breisgau, na Alemanha, assistindo o filme Orfeu Negro de Marcel Camus. Fiquei, de cara, cegamente apaixonada pela beleza do Rio de Janeiro e de seus homens e mulheres , pela poesia de Vinícius de Moraes e pelo ritmo da bateria do samba que emprestava à tragédia do desencontro entre Orfeu e Eurídice seus sons e cores. Nunca vou esquecer o impacto que me causou esse filme, há muitos e muitos carnavais ainda vividos em pleno inverno germânico.
Não pode ser a obra do acaso e , sim, do desejo que me deixou, anos mais tarde, chegar ao Rio com apenas uma mala de roupas para imigrar no Brasil, justamente na época do carnaval. Tinha escolhido o carnaval carioca como porta de entrada nesse país que se tornou o meu.
Assisti ao desfile das campeãs , naquele ano, no qual ainda não existia o sambódromo. A arquibancada era montada em cima de uma estrutura de ferro e madeira que vibrava no ritmo da bateria. Cair no samba alí, pela primeira vez, foi , com certeza, uma da minhas mais emocionantes aventuras eróticas. A noite quente e estrelada, a bateria tocando seus instrumentos no ritmo das batidas do coração, homens e mulheres semi-nus cantando e requebrando na dança sensual me seduziram ao ponto de me entregar de corpo e alma ao Brasil.
Muitos carnavais de lá pra cá se passaram. Assisti a outros desfiles. Pulei o carnaval das marchinhas, do axé, do frevo. Desfilei, requebrei, me acabei no samba. Pois, quem diz que gringa não tem ginga? Afinal, como boa foliã sei que atrás de uma bateria “só não vai quem já morreu”. Entraram e saíram carnavais, desfilaram escolas diante dos meus olhos ou, até, comigo dando uma de passista. Belos sambas foram entoados, nos conduzindo pela “estrela de luz” ou deixando a liberdade “abrir as asas sobre nós”. Deixei-me encantar pela poesia do samba à moda do século XX em louvor ás ideais da liberdade, da justiça, do eterno amor. Nesse ano, não foi diferente. Minha “torcida” era pelo desfile da Vila Isabel com seu samba do mestre Martinho e seu enredo sobre gênio do samba, Noel Rosa.
Mas, depois de todos esses carnavais, no Brasil, não imaginava que um desfile de uma escola de samba meio outsider pudesse me causar estranhamento. O que seria isso que assisti, por falta de pique de ir pular o carnaval, na televisão? “É segredo!” responde o enredo dos Unidos da Tijuca. Amante do carnaval romântico que conheci ao chegar no Brasil, percebi , de repente, que mesmo nas escolas de samba, estamos em pleno século XXI. O enredo foi ideia de um menino de 15 anos de idade, não por acaso. O mistério faz parte da vida de sua geração como os ideais faziam da nossa. Estamos num mundo em que não há mais uma grande verdade, mas uma realidade que constantemente muda seu enfoque. Do Senhor dos Anéis até Avatar, efeitos especiais e a realidade fantástica fazem o maior sucesso no cinema. Na internet criamos e recriamos nossas próprias identidades. Quem sou eu? “É segredo!” Feito a ilusão de ótica posta em cena pela comissão de frente da escola de samba, o mundo virtual tenta “iludir meu olhar” e evocar a tentação de descobrir qual dentre tantas versões de um fato é a verdade. Segredos velam o que ocorre na política, na economia, na justiça. A publicidade brinca com a curiosidade (para depois satisfazê-la com o anúncio de mais uma loura gelada e devassa … cerveja). Para montar blog, facebook e twitter participo da mascarada de codinomes. Quem é Dadivadivina? “É segredo!” Dorothee, para os gregos e troianos, não despertaria tanta curiosidade.
Mas, qual seria o segredo do segredo? O “indecifrável”, como quer o samba-enredo? O amor, ora! Ilusão de ótica, o amor deixa cego, atiça a imaginação e a tentação de descobrir o que há por detrás desse sorriso, dessa parada , dessa mascarada. “Qual é a dele?” me pergunto. Confesso que , se isso não fosse segredo, perderia o desejo.
