domingo, 21 de fevereiro de 2010

Qual será o segredo do segredo?

Gringa que sou, percebi a virulência deste país que se chama Brasil numa tarde fria de carnaval em Freiburg im Breisgau, na Alemanha, assistindo o filme Orfeu Negro de Marcel Camus. Fiquei, de cara, cegamente apaixonada pela beleza do Rio de Janeiro e de seus homens e mulheres , pela poesia de Vinícius de Moraes e pelo ritmo da bateria do samba que emprestava à tragédia do desencontro entre Orfeu e Eurídice seus sons e cores. Nunca vou esquecer o impacto que me causou esse filme, há muitos e muitos carnavais ainda vividos em pleno inverno germânico.

Não pode ser a obra do acaso e , sim, do desejo que me deixou, anos mais tarde, chegar ao Rio com apenas uma mala de roupas para imigrar no Brasil, justamente na época do carnaval. Tinha escolhido o carnaval carioca como porta de entrada nesse país que se tornou o meu.

Assisti ao desfile das campeãs , naquele ano, no qual ainda não existia o sambódromo. A arquibancada era montada em cima de uma estrutura de ferro e madeira que vibrava no ritmo da bateria. Cair no samba alí, pela primeira vez, foi , com certeza, uma da minhas mais emocionantes aventuras eróticas. A noite quente e estrelada, a bateria tocando seus instrumentos no ritmo das batidas do coração, homens e mulheres semi-nus cantando e requebrando na dança sensual me seduziram ao ponto de me entregar de corpo e alma ao Brasil.

Muitos carnavais de lá pra cá se passaram. Assisti a outros desfiles. Pulei o carnaval das marchinhas, do axé, do frevo. Desfilei, requebrei, me acabei no samba. Pois, quem diz que gringa não tem ginga? Afinal, como boa foliã sei que atrás de uma bateria “só não vai quem já morreu”. Entraram e saíram carnavais, desfilaram escolas diante dos meus olhos ou, até, comigo dando uma de passista. Belos sambas foram entoados, nos conduzindo pela “estrela de luz” ou deixando a liberdade “abrir as asas sobre nós”. Deixei-me encantar pela poesia do samba à moda do século XX em louvor ás ideais da liberdade, da justiça, do eterno amor. Nesse ano, não foi diferente. Minha “torcida” era pelo desfile da Vila Isabel com seu samba do mestre Martinho e seu enredo sobre gênio do samba, Noel Rosa.

Mas, depois de todos esses carnavais, no Brasil, não imaginava que um desfile de uma escola de samba meio outsider pudesse me causar estranhamento. O que seria isso que assisti, por falta de pique de ir pular o carnaval, na televisão? “É segredo!” responde o enredo dos Unidos da Tijuca. Amante do carnaval romântico que conheci ao chegar no Brasil, percebi , de repente, que mesmo nas escolas de samba, estamos em pleno século XXI. O enredo foi ideia de um menino de 15 anos de idade, não por acaso. O mistério faz parte da vida de sua geração como os ideais faziam da nossa. Estamos num mundo em que não há mais uma grande verdade, mas uma realidade que constantemente muda seu enfoque. Do Senhor dos Anéis até Avatar, efeitos especiais e a realidade fantástica fazem o maior sucesso no cinema. Na internet criamos e recriamos nossas próprias identidades. Quem sou eu? “É segredo!” Feito a ilusão de ótica posta em cena pela comissão de frente da escola de samba, o mundo virtual tenta “iludir meu olhar” e evocar a tentação de descobrir qual dentre tantas versões de um fato é a verdade. Segredos velam o que ocorre na política, na economia, na justiça. A publicidade brinca com a curiosidade (para depois satisfazê-la com o anúncio de mais uma loura gelada e devassa … cerveja). Para montar blog, facebook e twitter participo da mascarada de codinomes. Quem é Dadivadivina? “É segredo!” Dorothee, para os gregos e troianos, não despertaria tanta curiosidade.

Mas, qual seria o segredo do segredo? O “indecifrável”, como quer o samba-enredo? O amor, ora! Ilusão de ótica, o amor deixa cego, atiça a imaginação e a tentação de descobrir o que há por detrás desse sorriso, dessa parada , dessa mascarada. “Qual é a dele?” me pergunto. Confesso que , se isso não fosse segredo, perderia o desejo.