Alemã e psicanalista que sou, não poderia deixar de comemorar a força do desejo que derrubou o Muro de Berlim, há 20 anos.
A lei iria permitir aos alemães orientais viajarem, durante 30 dias, pela Alemanha Ocidental, matar saudade dos parentes, fazer turismo, conhece as vitrines das cidades capitalistas para depois voltarem pra casa. Meticulosamente redigida, regulamentada, normatizada e autorizada, enfim, escrita para nenhum alemão , ocidental ou oriental, botar defeito, a nova lei que ainda iria ser promulgada e entrar em vigor, é apresentada, no dia 9 de novembro de 1989, por Günter Schabowski, o porta-voz do partido comunista alemão aos jornalistas internacionais reunidos em Berlim. Eis que restou uma dúvida: “ Quando a lei vai entrar em vigor?” O porta-voz perde a voz, o rebolado, folheia a papelada, não sabe o que deve dizer e solta, de repente: “Imediatamente, sem atraso.”
Falou. Jornalistas espalham-se, agarram telefones, aparelhos de fax , de telex, e noticiam ao mundo o ato falho do bravo camarada do partidão alemão . Sigmund Freud iria gostar de ver! A notícia espalha-se feito vírus. Poucas horas depois, um milhão de alemães orientais estão nas ruas e , passaporte em mãos,é claro, aguardam disciplinadamente, é lógico, a permissão para passarem pela fronteira. Os guardas da fronteira, então chamada de “cortina de ferro”, não sabem o que fazer. Falta a ordem. Falta a ordem lá de cima!! Até que os guardas de um posto da periferia de Berlim resolvem deixar pra lá a ordem e abrem a fronteira. Feito o desejo que se soltou do inconsciente pela falha na linguagem do camarada Schabowski, a multidão sai da Alemanha Oriental derrubando consigo o muro que dividia a Alemanha e a geografia política do mundo , havia 28 anos.
Vinte anos se passaram. O muro que assombrou minha infância na Alemanha Ocidental não existe mais. Vivemos num mundo globalizado que gerou maravilhas tecnológicas, uma cultura multifacetada, cosmopolitismo, mas também miséria, violência e a ameaça de uma catástrofe ambiental. Outros muros permanecem. Outros muros foram erguidos. Do Muro de Berlim ainda restam pedaços que viraram obras de arte a lembrar que, diante do desejo, levado a suas últimas consequências até as cortinas de ferro viram pó.